O barulho parou de soar, o cheiro de pólvora fez-se notável e uma paz estranha invadiu o quarto. Ela, com o coração palpitante e as mãos trêmulas, abaixou a arma junto ao colo e escorou melhor na cabeceira da cama. Eram então dois corpos sentados sobre o lençol, o outro enconstado na parede, inerte. Ela olhava toda aquela ternura escarlate se espalhar pela paisagem, a mente rodopiava, "tudo estava acabado". Em seus olhos o mundo se esfarelava, seu coração era ruína, mas uma ruína feita de tal plenitude que enchia a alma e era insuportável. Era o fim daquele amor imenso, não havia outro jeito: não poderiam deixar um ao outro. O resto era só lágrimas, dos olhos e do Fim que abrira nele, lágrimas de diferentes cores, mas que se espalhavam e se misturavam: eram feitos de uma só substância, uma só alma. Por fim - ela sabia - a tristeza chega ao auge, e ela suavemente encosta o metal ainda morno em uma de suas têmporas, implorando para que não dure muito tempo sua agonia.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
O dia estava incrivelmente cinza. O ar gélido e úmido indicava que o céu havia se acabado na noite anterior, e, talvez porque o dia estivesse por nascer, o mundo parecesse tão sem-vida. Ou então pois, sentado no chão inerte, a compactuar, apático, com as raras manifestações de mato que se esgueiravam por entre as frestas da calçada, ele sentisse tamanho desolamento que este se propagava como uma aura mórbida ao seu redor. Os amores não eram justos, os egoístas eram todos, o tédio era regra geral na conduta do universo, e não importava muito o porquê de tudo isso, já que cada pedra e cada poça d'água o diziam em uníssono. Suspirar ou não respirar parecia não ter diferença: o que dizer da vida que não se move, que não que ela tenha sido devorada e tragada de algum modo brutal e impiedoso? Mas mesmo frente a essa reflexão, continuava a respirar como-que-morto, se recusando, covarde, a soltar aquele fio de vida, ainda que aquele vazio apocalíptico o esmagasse por dentro e por fora.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
A pintura é
Um dia chuvoso, suave. As venezianas barram boa parte da luz: aquela nociva aos olhos cansados da vida, ou da existência em vigília. O ambiente todo assenta-lhe suave para os sentidos frágeis, inclusive o sofá onde se deita, melacólica-nostagicamente. Ela olha para o teto branco, imaginando que talvez fumaria se pudesse, para tornar a memória áspera da existência cada vez menos real. Felizmente para ela, o ambiente sutil a fez sair de si, e as lágrimas represadas não parecem mais tão nervosas. A respiração parece querer parar a qualquer momento, no transe congelado em que se encontra, mas estranhamente se mantém. Num dado momento, suspira, e se pergunta quanto mais viverá daquele jeito [Ou, mais pessimista, o quanto mais durará a vida - que é só aquilo?]
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Excertos de um quebra-cabeça mórbido
Bebia o copo de água como se fosse veneno.
Tinha mania de morte: a via e a queria onde quer que fosse.
Mas a morte é ingrata - não veio.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Maldição corriqueira
Alguns dias são mais pesados, e geralmente estes se encontram em sequência. A indisciplina te domina pela insatisfação/incoerência com o mundo. Importa-lhe as coisas erradas, e as que deveriam ser consideradas têm teu desprezo. Se possível, come-se e bebe-se mais que o necessário; entretem-se nas coisas mais vadias e banais. E o sono. O pegajoso sono. Não que o período de vigília seja esfumaçado pela sonolência, mas quando tu dormes, não queres ser acordado mais, a realidade alternativa te prende, sucumbes à fraqueza humana da ânsia da ilusão que te tire o peso da existência. Teu desejo torna-se o sono eterno, a analgesia infinita.
terça-feira, 21 de abril de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
Súbito e nulo
vontade de filosofar, de amar
de correr e gritar
mas nada me ocorre à mente...
[embora tudo me ocorra com intensidade, no exato instante efêmero...]
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Eis a questão
De um lado do ringue, a visão fria de mundo, que não quer se deixar levar por ilusões ou levianeidades, que quer preto no branco. Não há deuses, motivos sublimes, apenas nascemos para crescermos, nos reproduzirmos e morrermos, o que há entre isso é para matar o tempo. É assim pois é a verdade lógica do universo, um pensamento amadurecido, liberto das fraquezas humanas, das "muletas mágicas".
Do outro lado do ringue, a visão idealista do mundo, que vive entremeante em ilusões, belezas não necessariamente verdadeiras. Enfeita a existência para seu próprio deleite, guia-se pelo lado humano no âmbito menos racional, pois está ciente de que racionalismo demais é nocivo. Chamam-no fraco, mentiroso a si mesmo, mas não se hesita.
Enfim, a questão é a seguinte:
a verdade fria e desoladora ou a ilusão feliz, descompromissada?
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Diplomacia
Quiseram me ensinar diplomacia. Mas na fúria de observar as mentiras fáceis, o cinismo intrínseco não foi notado. O fato é que menti tanto nos últimos meses que sinto repulsa de mim mesmo. Mentiras diplomáticas; certamente mal-direcionadas e egoístas, mas diplomáticas.
Por mais que eu tente adentrar na devassidão e no hedonismo, meu corpo se nega e só se vêem cicatrizes sobre o pouco desfrute. "O sofrimento traz sabedoria", mas vale mesmo a pena? Que parte do ser pode ser utilizada sem demasiado dano, se a mente, alma ou corpo? Já questiono o quanto posso retomar meu estado equilibrado... Ou o quanto estou sendo sábio no desperdício do meu corpo e alma... A cada vez sei mais coisas, mas estou utilizando esse conhecimento realmente? Pois pelo que vejo estou apenas cometendo os mesmos erros horríveis de antes, e me tornando a pior pessoa possível quando a onda passa...
sábado, 10 de janeiro de 2009
A puta
"Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
De quem disser: Eu quero
A puta
Quero a puta quero a puta.
Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.
É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta."
- Carlos Drumond de Andrade
Eu quero a puta!
[pois as que amam também odeiam. se magoam, me torturam. me magoam, as torturo. e o ciclo macabro se finda no sonho que não alcanço, o ciclo fatídico prossegue na realidade de que não me livro. e as realidades trocam-se aleatoriamente, minhas realidades e vossas realidades, no ímpeto louco da idéia bipolar que é o amor, morrendo a cada segundo na espinha dos românticos, matando-os a cada segundo. sou romântico que morre da doença dos não-romanticos, por vezes o contrário. mas morro e sempre morro.]
[mas nem a puta funcionou.. keep walking..]
domingo, 14 de dezembro de 2008
Obsessões efêmeras
E novamente as inquietas noites de expectativas,
De não saber o que fazer.
E no saber, resumir-se a esperar
A boa vontade das donzelas,
Que por um sadismo macabro
Não são obsessivas como eu.
domingo, 9 de novembro de 2008
"Amigo punk"
Permaneço em minhas paranóias.
Não digo nada a ninguém porque nunca sei o que eu quero.
Não digo nada, e o niilismo me mata.
Mata-me o niilismo.
Morte ao niilismo.
[Com o niilismo, a morte nunca fez tão pouco sentido].
e eu odeio o que eu escrevo, mas assino, como a desenhista estoniana perfeccionista.
-se ao menos eu conseguisse, por um texto, transparecer meu caos, minha paranóia, minha ira generalizada, minha solidão... mas minha condição poética está lá no chão, libero-me em fragmentos ininteligíveis. Quero uma simples fuga, para sempre; um 'choose your new character'; uma perfeição que me seqüestre (como a menina que joga xadrez). Quero tudo o que não tenho, pois sou a versão masculina d'A incontentável, e mesmo aguardo a carta que nunca virá. Me limito em pensamento aos fragmentos que não me contentam afinal. Porque não tenho alguém só para mim. Alguém para mim só. Só. O resto é a matéria escura que ilustra monocromaticamente minha existência caótica; pouco me importa essa matéria negativa e preenchitiva. Um grito por favor, me devolvam minha garganta! Me devolvam minha capacidade poética, minha alegria infantil. Pode levar meus punhais, só quero olhá-los mais um pouco... E por fim, nesse misto dramático de idéias, destilo a amilase e embebedo-me com essa saliva seca. Arrependimento [pela omissão] é a palavra que tenta a língua a ser dita; língua inquieta, que devora minha boca no desespero de devorar a de outrem.
E não quero dó, abomino-a. Quero empatia. E um beijo. E um carinho. Sinceros.
[esse post n dura mais de um dia]
sábado, 1 de novembro de 2008
Repugnante,
repugnante! - gritava, como se o grito pudesse purificar sua consciência e o espírito dos outros degradados seres que dançavam vazios sobre a poça do veneno que escorria de suas perfurações auto-pungidas.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O branco que não sara
Branco. É o que vejo.
Um apático branco, quase o mar de leite de Saramago.
Sorrisos tristes tentam desenhar alguma figura
Menos estática, a minha frente.
Os olhos sangram às vistas de bocas a sangrar,
Mas é um sangue branco
Congelado e interno,
Branco. Quase cinza.
Mas ainda assim branco.
Não exalam prazeres as bocas ou os olhos
Ou as comidas e os sons débeis, frutos de um instrumento ao Léu.
Uma batida desesperançada, um acorde dissonante,
E mais nada me toca o coração
Branco, quase cinza.
Mas ainda assim o mar de leite de Saramago.
sábado, 4 de outubro de 2008
You can tell by the red in my eyes
"They'll say just:
let
her
crash
and
burn
she'll learn.
The attention just encourages her"
'Girl Anachronism' from The Dresden Dolls
domingo, 28 de setembro de 2008
Aquem do bem e do mal
O problema de fazer coisas boas é que as pessoas pedem bis.
Precisa-se ser muito bom para ser bom.
Parece então que ser mau é mais fácil, talvez até mais divertido.
Então por que ser bom?