O dia estava incrivelmente cinza. O ar gélido e úmido indicava que o céu havia se acabado na noite anterior, e, talvez porque o dia estivesse por nascer, o mundo parecesse tão sem-vida. Ou então pois, sentado no chão inerte, a compactuar, apático, com as raras manifestações de mato que se esgueiravam por entre as frestas da calçada, ele sentisse tamanho desolamento que este se propagava como uma aura mórbida ao seu redor. Os amores não eram justos, os egoístas eram todos, o tédio era regra geral na conduta do universo, e não importava muito o porquê de tudo isso, já que cada pedra e cada poça d'água o diziam em uníssono. Suspirar ou não respirar parecia não ter diferença: o que dizer da vida que não se move, que não que ela tenha sido devorada e tragada de algum modo brutal e impiedoso? Mas mesmo frente a essa reflexão, continuava a respirar como-que-morto, se recusando, covarde, a soltar aquele fio de vida, ainda que aquele vazio apocalíptico o esmagasse por dentro e por fora.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
A pintura é
Um dia chuvoso, suave. As venezianas barram boa parte da luz: aquela nociva aos olhos cansados da vida, ou da existência em vigília. O ambiente todo assenta-lhe suave para os sentidos frágeis, inclusive o sofá onde se deita, melacólica-nostagicamente. Ela olha para o teto branco, imaginando que talvez fumaria se pudesse, para tornar a memória áspera da existência cada vez menos real. Felizmente para ela, o ambiente sutil a fez sair de si, e as lágrimas represadas não parecem mais tão nervosas. A respiração parece querer parar a qualquer momento, no transe congelado em que se encontra, mas estranhamente se mantém. Num dado momento, suspira, e se pergunta quanto mais viverá daquele jeito [Ou, mais pessimista, o quanto mais durará a vida - que é só aquilo?]
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Excertos de um quebra-cabeça mórbido
Bebia o copo de água como se fosse veneno.
Tinha mania de morte: a via e a queria onde quer que fosse.
Mas a morte é ingrata - não veio.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
Súbito e nulo
vontade de filosofar, de amar
de correr e gritar
mas nada me ocorre à mente...
[embora tudo me ocorra com intensidade, no exato instante efêmero...]
sábado, 17 de janeiro de 2009
Hope is a dog from hell
.Vim andando - claro, não poderia fazer outra coisa. O sol já se punha, esfriava o tempo, como quem bane as pessoas para as próprias casas e mentes, na introspecção que é a noite solitária.
.Vim andando, me retendo para não olhar para trás, tentando não alongar esse momento meio frustrante, meio bobo. Mas no ímpeto da curiosidade - ou esperança - me viro sutilmente, e me deparo apenas com a mesma paisagem que aí estivera durante a tarde. Faltou algo, que não sei quando aparece, se aparece, apenas aguardo-me, na humildade que desenterro não-sei-de-onde - talvez seja só um capricho do meu orgulho, que se orgulha na própria camuflagem, a vaidade dando-se a ao luxo de satisfazer a outra vaidade, externa a mim. Faltou, talvez, alguém.. donde um vão na minh'alma toma forma e sussura uma alma.
.Vim andando, derrotado apenas hoje, e no resto dos cânones desse dia que se vai.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Carta desenterrada, mas não menos distante
Dias brancos vêm e vão
Não sei se foi algo que perdi
Ou que não encontrei, que me falta
Sei que tua distância esvai meu sangue
Mesmo que tua memória refaça meu sorriso
Pressinto, sem data, teu encontro
Pelo qual minha alma anseia
3/10/2007
[acho que eu era mais poeta.. ou mais triste..
de qualquer modo, achei isso nos meus registros e lembrei que ficou bom.]
domingo, 14 de dezembro de 2008
Obsessões efêmeras
E novamente as inquietas noites de expectativas,
De não saber o que fazer.
E no saber, resumir-se a esperar
A boa vontade das donzelas,
Que por um sadismo macabro
Não são obsessivas como eu.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
domingo, 9 de novembro de 2008
sábado, 1 de novembro de 2008
Repugnante,
repugnante! - gritava, como se o grito pudesse purificar sua consciência e o espírito dos outros degradados seres que dançavam vazios sobre a poça do veneno que escorria de suas perfurações auto-pungidas.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O branco que não sara
Branco. É o que vejo.
Um apático branco, quase o mar de leite de Saramago.
Sorrisos tristes tentam desenhar alguma figura
Menos estática, a minha frente.
Os olhos sangram às vistas de bocas a sangrar,
Mas é um sangue branco
Congelado e interno,
Branco. Quase cinza.
Mas ainda assim branco.
Não exalam prazeres as bocas ou os olhos
Ou as comidas e os sons débeis, frutos de um instrumento ao Léu.
Uma batida desesperançada, um acorde dissonante,
E mais nada me toca o coração
Branco, quase cinza.
Mas ainda assim o mar de leite de Saramago.
sábado, 4 de outubro de 2008
You can tell by the red in my eyes
"They'll say just:
let
her
crash
and
burn
she'll learn.
The attention just encourages her"
'Girl Anachronism' from The Dresden Dolls
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Monotone, monocromatic, monotheistic
Kael's got her at his bed
Inegately empty he declared
"Let me see what she's got"
Lovely nude made him mad
Monocromatic ridiculous sex
Ended his heart and mind bad
terça-feira, 19 de agosto de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
Einsamkeit oder Zweisamkeit?
A lua, lumiosa e branca no céu. Vento sereno, sutil. Noite a cobrir tudo. Aromas campestres, doces. Talvez uma praça, uma lagoa, um campo, uma rua, uma escadaria, um alpendre, um morro, uma árvore, contanto que silenciosamente. Paz de espírito, tudo a repousar, obscuro e resplandescente.
E vem a pergunta, sobre o melhor, o mais pleno:
Solidão ou alguém com quem estar?
[toda a imagem, a paisagem, a ilusão, torna-se incrivelmente e esmagadoramente magnífica; às vezes sua beleza não é suportável, assim me surge a pergunta]
terça-feira, 1 de julho de 2008
Oscar Wilde
"Sim, sou um sonhador. Sonhador é quem consegue encontrar o próprio caminho ao luar e, como punição, vê o alvorecer antes do resto do mundo"
sábado, 24 de maio de 2008
Trecho do sonho em outro mundo
Continuo andando pelas ruas
Tudo negro, como gosto
Vento a me acariciar, como me delicio
Lua a me observar, como sonho
E ainda assim, no auge do prazer idealizado
Das cores lindas e visões oníricas
Me mordo e me suspiro
Pois, pelos céus...
Apenas tenho uma lembrança doce e gélida do que me tem e me espera
domingo, 2 de março de 2008
Violin after midnight
It's a rose I'm after, the most beatiful thing of all. Many wish it and dream of it. I look for it 'cause it's perfection, it's a dream, a escape, a magic, a sweet melody played by cellos...
But I start to acknowledge I'm after a thing that's deep inside shadows. Don't know if everyone see those shades, but I do.
It's beautiful, but I don't actually know it deep. I wish it most, dreams and tears and colapses for that black rose; but it's the finest perfection, I need this rose.
Bare dreams are harmless, but proximity hurts. I approach a rose - I don't know its scent, its essence at all - and it hurts. Evil forces, too many wishes and dreams and needs, and so it's away again. Blood and tears are lost again, and again I don't have myself at all, my pieces get scattered through hearts.
You don't having a part of yourself surely makes you crash to reality, as a falling stone in a world of glass. It disturbes you lots. Maybe it's my lonely soul, that dreamin' of roses, black ones or not, drunk in poison or purely asleep.
Only Ravena knows my deep, and I'm still wrapped in chains longing for a rose that can make me feel a soul...
[a quem não se sente a vontade com inglês, apenas ignore...]